Olhe! Sou eu bem ali! Estou andando pelo quintal, estou deitada em meu quarto, estou afundando em minhas mágoas, de ambos os lados.
Bom, hoje foi um dia com início melancólico, cheio de vozes altas e batidas de pé em minha mente. Mas agora me sinto bem melhor, como sempre. Sentei-me nesta cadeira ontem e terminei a segunda parte de “Nozes”, hoje escrevi um outro texto com um quê maiúsculo de aleatoriedade.
Fiz umas bobagens, tipo esquecer de entregar os dvds na locadora (como sempre!) e também comer Trakinas. Estou entrando nos eixos de pouco a pouco, vou ser um orgulho, um dia, quem sabe?
Bom, então aí está. A continuação de Nozes… I hope you like that horror show (The Birthday Massacre no som…)
~Nozes
A tarde estava descendo, meu pai ainda não havia chegado a casa, minha mãe estava ao fogão, cozinhando o jantar, o primeiro de meus irmãos dormia no sofá, o segundo jogava bolas de neve no terceiro. E eu entrava em nossa casa, olhando de um lado a outro, escondendo o bombom Marconi no bolso interno de meu casaco.
Se um de meus irmãos o visse iria querer comê-lo.
Se minha mãe o visse, suas bochechas iriam ficar rosadas e pediria a mim para retornar a loja e pagá-lo -, coisa que eu não desejava mesmo fazer, pois eu sabia que aquilo era um presente do senhor Marconi para mim.
Se meu pai o visse, a reação seria a pior de todas, apesar de que na época, aos meus onze anos, eu não a compreenderia. Se ele visse aquele bombom, todo pomposo, que custava, no mínimo, uma libra, apenas levantaria uma das sobrancelhas e daria de ombros.
Então, eu deveria escondê-lo.
E era bem assim que fazia; uma pena que eu agia estranhamente e isto apenas estampava a situação.
Entrei em nossa sala, tirei os sapatos sujos de neve e calcei minhas pantufas, pus meu casaco no cabide, enfiei, logo, o bombom no bolso da calça.
A casa estava quente, e cheirava a pato assado, jantar daquela noite.
Fui até a cozinha, em passos leves, fazendo o possível para não soltar um ranger da madeira do chão. Vi minha mãe encarando o pato dentro do forno, ele aquecia vagarosamente e ela checava os últimos detalhes para ter certeza de que não havia esquecido nada.
Larguei o pacote de nozes sobre a mesa.
-Boa tarde, mãe!
E saí correndo da cozinha, ela só teve tempo de virar a cabeça para sentir o ar que eu fizera mover-se e a toalha de mesa que o ar mexido fizera balançar-se.
Subi as escadas, a primeira, que dava ao segundo andar, era reta e de corrimão largo e todo desenhado, em renomado estilo vitoriano, honras à Rainha. Nossa segunda escada ficava no quarto dos terceiro e segundo irmãos, subia em caracol para o terceiro andar.
A verdade é que o terceiro andar nada era se não o meu quarto.
Quando nasci, meus pais não tinham dinheiro o suficiente para mudarem-se novamente, já o haviam feito quando minha mãe dera a luz ao seu terceiro filho, no intuito terem espaço para toda a família. Eu não era esperado, e meus pais, mesmo felizes com meu nascimento, sabiam que não poderiam dar-se ao luxo de comprar outra casa, com mais um quarto, coisa que era muito cara. Por isto, quando eu já não poderia mais dividir o quarto com meus dois irmãos, meu pai resolveu construir um terceiro andar para abrigar meu quarto. O sótão foi remodelado para me abrigar, a família não acreditava ser agradável para eu dormir no sótão de teto tão baixo, além de parecer isolado demais. E por fim, como seu toque para a obra, meu pai mandou que fosse posta uma escada de madeira maciça em forma de caracol, ele sempre foi desejoso por ter uma destas.
Apesar de todo o carinho que minha família teve, e também de toda a consideração, o meu quarto permanece desagradável e me remete a lembranças do antigo sótão. No entanto, nunca ousei dizer-lhes isto, não haveria de magoá-los depois de tanto tempo e dinheiros gastos no empenho de modelar meu quarto de maneira confortável para mim.
Olhei de um lado a outro, e antes de tirar o bombom do bolso chequei meu quarto. Abaixei a cabeça rente ao chão, levantei os lençóis da cama e vi que realmente nada se escondia de baixo dela. Depois avancei até as cortinas, balancei-as, e ninguém tentava invisibilizar-se atrás delas.
Passou a vez de olhar dentro de meu baú de brinquedos, era largo o suficiente para alguém, um pouco maior que eu, enroscar-se ali dentro, pensei, então seria melhor verificá-lo também. Mais uma vez, sem maiores descobertas.
Vi até mesmo atrás da estante que meu pai havia posto em meu quarto, entulhada de livros, por falta de espaço nos andares inferiores.
E por último foi o armário. Mas ninguém mesmo estaria ali.
Tirei o cordão que envolvia meu pescoço, nele pendia a chave de meu armário, então abri as portas.
Dentro dele, como eu esperava, jaziam apenas meus casacos, minhas calças e blusas dependuradas, minhas meias e cuecas engavetadas. Sentei-me na prateleira que eu deixava sempre vazia, dali eu passei mais uma vez o olhar por todo meu quarto.
Toda aquela checagem, reviravolta, se devia a um simples motivo: meus tios e primos.
Como sempre, todo Natal eles passavam em nossa casa, vinham do País de Gales, onde moravam na cidade de Cardiff. E normalmente chegavam ao fim do dia vinte e três, outrossim era de seus costumes nunca avisar quando chegavam à estação de Sheffield. Por isto eu não tinha certeza se já haviam ou não chegado, e nem poderia ter, fugindo de todos os meus familiares.
Contudo, ao menos em meu quarto, não estavam. E mesmo que estivessem em algum outro canto da casa, como na sala de estar, no quarto de meu primeiro irmão, ou no de meus pais, mérito nenhum havia nisto para mim no dado momento, quando estava prestes a abrir meu bombom Marconi.
Eu puxei para fora da fechadura do armário, pelo cordão, minha chave gorja, coloquei-a em meu colo e em seguida tateei a parte de dentro das portas do armário. Havia dois puxadores de bronze, peguei-os e fechei as portas.
Tudo no interior das placas grossas de madeira ficou absolutamente escuro, abri e fechei os olhos mas nenhuma diferença fazia, sorri, então o armário estava completamente fechado.
Minhas mãos deslizaram pela prateleira até alcançarem os puxadores da gaveta de baixo dela, como as portas estavam fechadas, pude apenas abri-la um pouco, o suficiente para por minha mão direita em seu interior e tirar dali uma meia gorducha.
Empurrei com o punho a gaveta, apalpei a meia, era aquela mesma.
Dentro da gorda meia estavam duas velas e uma caixinha de fósforos, o motivo pelo peso extra da meia. Acendi uma das velas, localizei a fechadura da parte de dentro do armário, e empurrando a chave para dentro dela, girando-a junto de suas lingüetas, lá estava meu esconderijo predileto.
O armário de madeira pesada.
Ainda em minha primeira infância, não consigo contar quantos anos tinha – não me chega à memória, já que ela é toda baseada em fotos –, meu avô faleceu. Minha mãe herdou dele, como única filha viva, e pelo fato de minha avó já ser falecida, tudo que lhe pertencia. No entanto, chorosa e órfã, decidiu deixar tudo na casa dele, todos os bibelôs, tecidos, as jóias, os relógios da coleção de sua mãe. Quando tivesse coragem os resgataria. E um dia, não sei pela necessidade ou vontade própria, esta coragem chegou.
Minha mãe pediu a meu pai para que ele trouxesse aquele armário e o colocasse em meu novo quarto, era o presente dela para mim. Ele surgiu em minha casa num dia de outono – eu lembro porque voltara amassando as folhas com meus pezinhos e de mãos dadas com mamãe e um de meus irmãos – mostraram-no para mim junto de todo meu quarto. Eu estava desgostoso em ter aquele quarto. Talvez minha mãe tenha percebido, mesmo sem eu fazer birra ou manha, apenas com um olhar quieto, e logo me entregou a chave do armário.
“É seu, conheça seu segredo.”
A princípio não imaginei que houvesse algo assim dentro dele, meios de trancá-lo de tal forma por seu interior, mas minha mãe sabia. E ela sabia que eu descobriria.
Desde então, enfiei apetrechos, as velas, a caixa de fósforos, e a mim mesmo nele. Sempre que preciso, entro no armário.
E aquele era um dos momentos em que eu precisava.
Abri o papel dourado do bombom lentamente, quase como um ritual, e vi surgir o chocolate recheado com um crocante creme de nozes. Levei-o lentamente a boca, e ao prová-lo senti um gosto novo surgir, diferente de todos os doces que já conhecia. Hoje não posso mais contestar a autenticidade daquele gosto, se era realmente tão bom quanto me lembro, pois talvez fosse apenas a euforia do momento, o fato de estar escondido saboreando algo meu (e não feito por minha mãe ou tia)… A verdade é que nunca mais poderei falar a verdade daquele gosto, no entanto, o que se seguiu àquele bombom, isto eu posso provar, e é amargo.
Estava ainda saboreando um pequeno pedaço, o pouco que tinha tido coragem de gastar do bombom, quando ouvi uma forte pancada.
Pah!, algo batera na janela do meu quarto. Levei um susto e dei um pulo dentro do armário, batendo com a cabeça na barra de madeira onde ficavam pendurados os cabides.
-Ai… – afaguei minha cabeça.
Então, ainda com o coração acelerado, e perguntando-me se alguém sabia que estava ali, a única coisa que tive coragem de fazer foi me enfiar ainda mais no interior das fortes placas de madeira. Logo em seguida mais algo bateu na janela, o som reverberou pelo quarto. Dei mais um pulo.
Peguei o bombom e comecei a guardá-lo novamente dentro de sua embalagem, assoprei a vela que deixara presa entre meus joelhos. O interior voltou ao breu anterior, então rapidamente me pus a guardar a vela e os fósforos dentro da meia.
Quando já tinha guardado tudo, e agora apenas observava a escuridão, pensando em possibilidades para a barulheira (talvez meus irmãos, meus primos…), uma terceira pancada soou. Aqueles três…, pensei em meus irmãos se divertindo às minhas custas, como sempre gostavam de fazer.
Guardei o bombom junto das velas dentro da meia, e a meia foi de volta à gaveta. Parei novamente para observar o meu redor, hoje penso como era um menino medroso, e com um suspiro criei coragem para sair do armário e ir checar o que criara aqueles sons.
Abri o armário, tirei a chave pus novamente em torno de meu pescoço, vagarosamente abri o armário. Ao olhar para fora, lá estava ela, sentada em posição fetal de frente para mim, esperando-me sair.
-Ahh! – gritei ao ver Ingrid, minha prima, com um olhar tácito caído sobre mim. – Ingrid?!
Ela riu, eu estava com a mão sobre o peito, afagando ainda pelo susto. Ela descobriu…, pensei amargurado.
-Então, – sorria de lado a lado do rosto. –finalmente descobri onde meu priminho se enfia quando foge de nós…
Ingrid se levantou e foi até a porta do armário, observou calmamente a fechadura que trancava o armário por fora, depois a que o trancava por dentro. Ainda sorrindo, virou-se para mim e completou:
-Nossa, um ótimo trabalho de marcenaria, não? – falou baixinho, ainda observando os detalhes da fechadura do armário. Em seguida levantou o olhar de volta para mim e perguntou-me nos olhos:
-E por quanto tempo mais pensava que poderia esconder isto de mim?
Tentei respondê-la, mas fiquei sem palavras para isto.
Se algum dia alguém, qualquer um, pedisse-me para descrever minha prima, duas características seriam essenciais. Primeiramente, apesar do visual dândi, ligeiramente masculino e extremamente arrumado, com o qual gostava de se exibir na rua, Ingrid era uma das garotas mais desorganizadas que conhecia. Mas, em oposição à sua falta de ordem no que se tratava de seu quarto ou até mesmo em seus horários, pro exemplo, ela também era uma garota muito inteligente e prontamente atéia.
Ao completar seis anos, Ingrid mostrara-se tão perspicaz e respingona que sua mãe não hesitou em mandá-la a uma escola católica. Lá, dizia Ingrid, todas as freiras eram grosseiras (apesar de seu teórico respeito por Deus e as demais criaturas), as alunas, mais frescas que anjos de afrescos de Botticelli, e para piorar a situação, não havia nem sinal de vida inteligente a quilômetros de distância. Por desejo de sua mãe, fervorosa cristã que desejava converter Ingrid a qualquer custo (Por ela, até permitiria que realizassem uma lavagem cerebral em mim – o que aquela escola maldita não deixa de ser. Ou então, trocaria logo de filha, fingindo que de nada sabia!, ela mesma dizia de sua mãe, a senhora Cássia.), minha prima tinha de passar tempo integral na escola, indo para casa apenas nos fins de semana.
Ela era seis anos mais velha do que eu, e apesar disto, continuava sendo minha confidente, e eu, o dela. Adorava contar-me os métodos que inventava para matar as aulas de religião (as piores, em sua opinião), ou de simplesmente não prestar atenção a elas. Um de seus favoritos era o do livro por debaixo da saia, onde ela escondia um de seus livros de filosofia prediletos embaixo do comprido tecido da saia do uniforme e durante a aula a levantava completamente para ler, quando via a professora se aproximando, nem se incomodava em abaixar a saia, ela parava ao seu lado, via o livro e as coxas desnudas de Ingrid, logo ficava vermelha como um pimentão de raiva e vergonha, e só então minha prima retornava a abaixar a saia. Nem se quisessem elas teriam coragem de meter a mão debaixo de minha saia e puxar o livro!, ela ria, Acredito que não conseguiriam levantar as próprias saias, quando o fazem devem virar os olhos para fugir do pecado. Adorava criar confusões com as freiras, tinha as marcas disto, de tapas que costumava a levar, além de provocar as alunas, como havia feito antes de me ver naquele dia vinte e três.
-Não conseguiria, mesmo, esconder isto de mim… Mas pode deixar, não contarei a ninguém! – então, ela me puxou e apertou-me num forte abraço. –Quantas saudades de você, pequenino Budd!
-Também senti, Ingrid.
Ela me largou e segurou-me pelos ombros.
-Alguém já lhe disse que tem nome de cachorro? – perguntou-me rindo.
-Você já cansou de me falar… – respondi girando os olhos, mas ainda sim rindo por dentro. Era mesmo verdade, sentira muita falta dela.
-Ah, não se incomode, sua mãe foi muito criativa!
Bom, para ser sincero, minha mãe não fora nada criativa. Budder fora o nome de um cachorro que minha mãe tivera quando nova, ele chegara para ela, como costumava a dizer, por surpresa de seus pais (mais ou menos como eu mesmo), e também fora embora de maneira surpreendente, num atropelamento por um carro. E além da coincidência com a minha inesperada chegada, mamãe gostava de chamar-me de filhote. O que mais gostaria de perguntar a ela, era como fora capaz de dar o nome de um cachorro para seu filho? Talvez o que explicasse isto era seu profundo apego por animais.
-Então… Pode ir confessando para mim, sabe que aprendi muito de confissões com a Madre Superiora… O que, diabos, estava fazendo escondido aí?
Ingrid já havia me soltado e agora andava pelo quarto, arrastando sua mala para um canto. Largou-a no chão, sentou-se a sua frente e a abriu, remexeu as roupas de dentro da mala e puxou uma blusa larga em estilo masculino.
-Ora, na… nada. – gaguejei. Droga…
Ela pôs-se a desabotoar a blusa feminina social que vestia.
-Nada que o tenho tornado gago, mas algum segredinho, não? – sorriu desdenhosamente.
-Claro que não há nenhum segredo. – olhei para o lado enquanto ela despia a blusa, sem lá grandes cerimônias, e seu sutiã pondo a blusa que havia pego em sua mala.
-Ótimo, então acho que pode contar. Bom, mesmo se fosse um segredo teria de me contar mesmo, podendo ou não…
-Já disse que não há nada.
-Certo, bem como não há nenhum ser no espaço! Acredito! – por algum motivo, Ingrid não era nada devota a Deus, mas muito devota a teoria de existência de vida alienígena.
-Ingrid, não teime! Agora nem posso ficar em meu armário sossegado!
-Pois não pode, mesmo! Olhe só, – falou virando-se para mim, por reflexo olhei para ela também, e quando percebi que ainda estava meio despida, com um dos seios aparecendo por debaixo da blusa, bruscamente voltei a olhar para um canto qualquer do quarto. –você não é de me esconder nada, e se está, agora, fazendo isto é porque tem algo por trás disto. Ou melhor, há alguém…
Vermelho, não mais pela cena de Ingrid seminua, foquei o chão.
-E eu sei quem é… Quem ele é…
Ingrid deu um pulo e voou para cima de mim, caímos os dois no chão, ela apertava minhas bochechas (costume de quando achava que eu estava com uma cara “bonitinha”) e ria quase a gargalhadas, escandalosa como sempre.
-Conte-me, anda! O que fez? Digo, o que ele fez?! Beijou-o, deu-lhe um pontapé? Sinto que foi um beijo porque, se quer saber, ocorreram umas coisas relativas a beijos em minha escola… – Ingrid lançava as palavras como uma metralhadora de um guerrilheiro. E ao, finalmente, acalmar-se, abraçou meu pescoço, caída ao meu lado.
-Não aconteceu nada disso, Ingrid… – falei baixinho.
-Mas é sinal de que algo aconteceu, senão nada falaria neste tom de dó menor, meio de culpa, meio de vergonha… Fale-me. – ela sorria, apenas, com inocência, sem mais desdém nem sadismo.
Vi-me encurralado, num beco, uma rua sem saídas. E, na verdade, acredito que desde o dia em que resolvi contar a estranha sensação que tinha para Ingrid, me encontro assim. Porém, excluindo a vergonha sentida, não havia nenhum problema para contar-lhe estas coisas, e tudo o que havia ocorrido naquele dia.
-Bom… – resolvi começar. –Hoje…
No entanto, ao terminar um suspiro, daqueles que parecem levar um pouco do medo para longe, mais uma vez o alto som bateu contra a janela de meu quarto, sobre a minha cama. Sentamo-nos com um sobressalto. Fitei Ingrid nos olhos, por um momento pareceu assustada, mas logo que seu susto desbotou, começou a rir novamente.
Eu, diferentemente, continuava sério e assustado, era o meu normal.
-Devem ser aqueles sacripantas dos seus irmãos, os três patetas! São tão bobinhos, sorte minha (e sua) que nasceu um mais espertinho na família!
Ela se levantou e foi até a janela, ajoelhou-se em minha cama e se esticou para alcançá-la. Dando um empurrão, abriu as abas de madeira, um fraco brilho do sol se adentrou, bem como um ou dois flocos de neve distraídos.
-Seus demoniozinhos!, ela começou. No entanto, no segundo seguinte, já havia se calado. Ingrid observava boquiaberta algo do outro lado da janela.
Ao ver a expressão de seu rosto, prestes a soltar a sua frase predileta, “Oh, meu Lúcifer.”, pus me de pé com um forte impulso e parei ao seu lado, ao lado da cama. Antes de olhar para fora, bati de novo contra seus olhos, ela parecia abismada e apontou para o quintal de nossa casa, que se via do meu quarto. Meus olhos seguiram seu dedo, meio mal esticado, incrédulo com seja lá o que via.
Ao seguir o traço que Ingrid indicava no ar, parada ao lado do pinheiro, meio escondida atrás dele, vi que lá estava ela. Lá estava minha prima, a própria Ingrid, sorrindo-nos ela deu um aceno. Voltei a olhar para o lado, e constatei que Ingrid, a minha, ainda estava ao meu lado observando sua cópia no quintal.
A garota do quintal segurava um pedaço de madeira, jogava-o ao ar e logo em seguida, com destreza, apanhava-o novamente. Então, ela deu mais um aceno (ambos podemos ver a luva que a cópia usava, branca com um botão negro de pedra ônix para o fecho, a luva preferida de Ingrid) e tacou o pedaço de madeira em nossa direção, ou apenas na direção da janela.
Abaixamo-nos rapidamente, e logo nos viramos para ver a garota no quintal, mas ela já não estava mais lá. Como um fantasma de contos de horror, parecera que evaporara no ar. Num acordo tácito, eu e Ingrid viramo-nos para olhar o tal pedaço de madeira caído no chão do quarto, em frente a minha cama.
Nele vinha escrito, com um garrancho que ainda aparentava arranhar a madeira: “Hello.”
Fim da parte dois;