•Junho 28, 2009 • Deixe um comentário

Agora são duas e meia da manhã, estou deitada no meu sofá quando ouço uma voz musical ecoar por toda minha mente. Como? Quem? Levanto-me e a vejo parada ao pé da escada, ela apoia-se delicadamente sobre o corrimão, eu apenas a observo, estou pasma, quieta, completamente totalmente gélida. A madeira escorre sob seus dedos enquanto ela sobe sua mão do apoio da escada aos cabelos, eu me aproximo cabaleando, os olhos cheios de água.
“Hanabi.”, ela chama-me por meu nome, e, sim, é a sua voz a tal melodia que eu escutara. Eu caio no chão, minhas pernas por um momento bambearam e eu não me agüentei em mim, como pode? Ela abaixa-se e segura minha mão esquerda, de leve, estou de luvas, mas ela consegue sentir todos os calos e machucados que haviam se formado em minha palma, percebe o frio que envolve meus dedos, desenluva-os em poucos movimentos.
“Onde…?”, eu tento perguntar, mas confundo-me comigo mesma, perco quem sou e em que lugar estou, num mar de dúvidas ainda, creio eu. “Quanto, meu Deus… Quanto tempo se passou?”
Ela nega. “Nem um único minuto.”, porém eu não compreendo., giro a cabeça de leve, num remorso sem tamanho por ser tão ignorante, uma dúzia de sentimentos circulam dentro de mim, e eu ouço cada um deles num fragmento de segundo, sem nem mesmo perceber. “Nem um único minuto se passou… Eu estive aqui, você esteve lá, permanecemos juntas o tempo todo.”
Ouço o ronco do gato, o silêncio torna a invadir a sala, suas mãos alisam meus machucados, seu rosto chora baixinho lágrimas que ela nem consegue deixar cair de tão pesadas. “Desculpe., digo a ela. Não pude me controlar em fazê-los.”, ela tira os olhos de minha mão, abana a cabeça. “Isto, é só uma pequena parcela à mostra do que guardei aqui dentro.”, e eu apenas dou de ombros, cuidar dela é tudo o que me importa, minha única doença, no fundo, é este laço apertado, eu tentara desfazê-lo para curar-me, tudo em vão.
Afago seu rosto com a outra mão, percebo que ainda estou com minha luva nesta [...]

Look!

•Dezembro 13, 2008 • 3 Comentários

Olhe! Sou eu bem ali! Estou andando pelo quintal, estou deitada em meu quarto, estou afundando em minhas mágoas, de ambos os lados.

Bom, hoje foi um dia com início melancólico, cheio de vozes altas e batidas de pé em minha mente. Mas agora me sinto bem melhor, como sempre.  Sentei-me nesta cadeira ontem e terminei a segunda parte de “Nozes”, hoje escrevi um outro texto com um quê maiúsculo de aleatoriedade.

Fiz umas bobagens, tipo esquecer de entregar os dvds na locadora (como sempre!) e também comer Trakinas. Estou entrando nos eixos de pouco a pouco, vou ser um orgulho, um dia, quem sabe?

Bom, então aí está. A continuação de Nozes… I hope you like that horror show (The Birthday Massacre no som…)

~Nozes

A tarde estava descendo, meu pai ainda não havia chegado a casa, minha mãe estava ao fogão, cozinhando o jantar, o primeiro de meus irmãos dormia no sofá, o segundo jogava bolas de neve no terceiro. E eu entrava em nossa casa, olhando de um lado a outro, escondendo o bombom Marconi no bolso interno de meu casaco.

Se um de meus irmãos o visse iria querer comê-lo.

Se minha mãe o visse, suas bochechas iriam ficar rosadas e pediria a mim para retornar a loja e pagá-lo -, coisa que eu não desejava mesmo fazer, pois eu sabia que aquilo era um presente do senhor Marconi para mim.

Se meu pai o visse, a reação seria a pior de todas, apesar de que na época, aos meus onze anos, eu não a compreenderia. Se ele visse aquele bombom, todo pomposo, que custava, no mínimo, uma libra, apenas levantaria uma das sobrancelhas e daria de ombros.

Então, eu deveria escondê-lo.

E era bem assim que fazia; uma pena que eu agia estranhamente e isto apenas estampava a situação.

Entrei em nossa sala, tirei os sapatos sujos de neve e calcei minhas pantufas, pus meu casaco no cabide, enfiei, logo, o bombom no bolso da calça.

A casa estava quente, e cheirava a pato assado, jantar daquela noite.

Fui até a cozinha, em passos leves, fazendo o possível para não soltar um ranger da madeira do chão. Vi minha mãe encarando o pato dentro do forno, ele aquecia vagarosamente e ela checava os últimos detalhes para ter certeza de que não havia esquecido nada.

Larguei o pacote de nozes sobre a mesa.

-Boa tarde, mãe!

E saí correndo da cozinha, ela só teve tempo de virar a cabeça para sentir o ar que eu fizera mover-se e a toalha de mesa que o ar mexido fizera balançar-se.

Subi as escadas, a primeira, que dava ao segundo andar, era reta e de corrimão largo e todo desenhado, em renomado estilo vitoriano, honras à Rainha. Nossa segunda escada ficava no quarto dos terceiro e segundo irmãos, subia em caracol para o terceiro andar.

A verdade é que o terceiro andar nada era se não o meu quarto.

Quando nasci, meus pais não tinham dinheiro o suficiente para mudarem-se novamente, já o haviam feito quando minha mãe dera a luz ao seu terceiro filho, no intuito terem espaço para toda a família. Eu não era esperado, e meus pais, mesmo felizes com meu nascimento, sabiam que não poderiam dar-se ao luxo de comprar outra casa, com mais um quarto, coisa que era muito cara. Por isto, quando eu já não poderia mais dividir o quarto com meus dois irmãos, meu pai resolveu construir um terceiro andar para abrigar meu quarto. O sótão foi remodelado para me abrigar, a família não acreditava ser agradável para eu dormir no sótão de teto tão baixo, além de parecer isolado demais. E por fim, como seu toque para a obra, meu pai mandou que fosse posta uma escada de madeira maciça em forma de caracol, ele sempre foi desejoso por ter uma destas.

Apesar de todo o carinho que minha família teve, e também de toda a consideração, o meu quarto permanece desagradável e me remete a lembranças do antigo sótão. No entanto, nunca ousei dizer-lhes isto, não haveria de magoá-los depois de tanto tempo e dinheiros gastos no empenho de modelar meu quarto de maneira confortável para mim.

Olhei de um lado a outro, e antes de tirar o bombom do bolso chequei meu quarto. Abaixei a cabeça rente ao chão, levantei os lençóis da cama e vi que realmente nada se escondia de baixo dela. Depois avancei até as cortinas, balancei-as, e ninguém tentava invisibilizar-se atrás delas.

Passou a vez de olhar dentro de meu baú de brinquedos, era largo o suficiente para alguém, um pouco maior que eu, enroscar-se ali dentro, pensei, então seria melhor verificá-lo também. Mais uma vez, sem maiores descobertas.

Vi até mesmo atrás da estante que meu pai havia posto em meu quarto, entulhada de livros, por falta de espaço nos andares inferiores.

E por último foi o armário. Mas ninguém mesmo estaria ali.

Tirei o cordão que envolvia meu pescoço, nele pendia a chave de meu armário, então abri as portas.

Dentro dele, como eu esperava, jaziam apenas meus casacos, minhas calças e blusas dependuradas, minhas meias e cuecas engavetadas. Sentei-me na prateleira que eu deixava sempre vazia, dali eu passei mais uma vez o olhar por todo meu quarto.

Toda aquela checagem, reviravolta, se devia a um simples motivo: meus tios e primos.

Como sempre, todo Natal eles passavam em nossa casa, vinham do País de Gales, onde moravam na cidade de Cardiff. E normalmente chegavam ao fim do dia vinte e três, outrossim era de seus costumes nunca avisar quando chegavam à estação de Sheffield. Por isto eu não tinha certeza se já haviam ou não chegado, e nem poderia ter, fugindo de todos os meus familiares.

Contudo, ao menos em meu quarto, não estavam. E mesmo que estivessem em algum outro canto da casa, como na sala de estar, no quarto de meu primeiro irmão, ou no de meus pais, mérito nenhum havia nisto para mim no dado momento, quando estava prestes a abrir meu bombom Marconi.

Eu puxei para fora da fechadura do armário, pelo cordão, minha chave gorja, coloquei-a em meu colo e em seguida tateei a parte de dentro das portas do armário. Havia dois puxadores de bronze, peguei-os e fechei as portas.

Tudo no interior das placas grossas de madeira ficou absolutamente escuro, abri e fechei os olhos mas nenhuma diferença fazia, sorri, então o armário estava completamente fechado.

Minhas mãos deslizaram pela prateleira até alcançarem os puxadores da gaveta de baixo dela, como as portas estavam fechadas, pude apenas abri-la um pouco, o suficiente para por minha mão direita em seu interior e tirar dali uma meia gorducha.

Empurrei com o punho a gaveta, apalpei a meia, era aquela mesma.

Dentro da gorda meia estavam duas velas e uma caixinha de fósforos, o motivo pelo peso extra da meia. Acendi uma das velas, localizei a fechadura da parte de dentro do armário, e empurrando a chave para dentro dela, girando-a junto de suas lingüetas, lá estava meu esconderijo predileto.

O armário de madeira pesada.

Ainda em minha primeira infância, não consigo contar quantos anos tinha – não me chega à memória, já que ela é toda baseada em fotos –, meu avô faleceu. Minha mãe herdou dele, como única filha viva, e pelo fato de minha avó já ser falecida, tudo que lhe pertencia. No entanto, chorosa e órfã, decidiu deixar tudo na casa dele, todos os bibelôs, tecidos, as jóias, os relógios da coleção de sua mãe. Quando tivesse coragem os resgataria. E um dia, não sei pela necessidade ou vontade própria, esta coragem chegou.

Minha mãe pediu a meu pai para que ele trouxesse aquele armário e o colocasse em meu novo quarto, era o presente dela para mim. Ele surgiu em minha casa num dia de outono – eu lembro porque voltara amassando as folhas com meus pezinhos e de mãos dadas com mamãe e um de meus irmãos – mostraram-no para mim junto de todo meu quarto. Eu estava desgostoso em ter aquele quarto. Talvez minha mãe tenha percebido, mesmo sem eu fazer birra ou manha, apenas com um olhar quieto, e logo me entregou a chave do armário.

“É seu, conheça seu segredo.”

A princípio não imaginei que houvesse algo assim dentro dele, meios de trancá-lo de tal forma por seu interior, mas minha mãe sabia. E ela sabia que eu descobriria.

Desde então, enfiei apetrechos, as velas, a caixa de fósforos, e a mim mesmo nele. Sempre que preciso, entro no armário.

E aquele era um dos momentos em que eu precisava.

Abri o papel dourado do bombom lentamente, quase como um ritual, e vi surgir o chocolate recheado com um crocante creme de nozes. Levei-o lentamente a boca, e ao prová-lo senti um gosto novo surgir, diferente de todos os doces que já conhecia. Hoje não posso mais contestar a autenticidade daquele gosto, se era realmente tão bom quanto me lembro, pois talvez fosse apenas a euforia do momento, o fato de estar escondido saboreando algo meu (e não feito por minha mãe ou tia)… A verdade é que nunca mais poderei falar a verdade daquele gosto, no entanto, o que se seguiu àquele bombom, isto eu posso provar, e é amargo.

Estava ainda saboreando um pequeno pedaço, o pouco que tinha tido coragem de gastar do bombom, quando ouvi uma forte pancada.

Pah!, algo batera na janela do meu quarto. Levei um susto e dei um pulo dentro do armário, batendo com a cabeça na barra de madeira onde ficavam pendurados os cabides.

-Ai… – afaguei minha cabeça.

Então, ainda com o coração acelerado, e perguntando-me se alguém sabia que estava ali, a única coisa que tive coragem de fazer foi me enfiar ainda mais no interior das fortes placas de madeira. Logo em seguida mais algo bateu na janela, o som reverberou pelo quarto. Dei mais um pulo.

Peguei o bombom e comecei a guardá-lo novamente dentro de sua embalagem, assoprei a vela que deixara presa entre meus joelhos. O interior voltou ao breu anterior, então rapidamente me pus a guardar a vela e os fósforos dentro da meia.

Quando já tinha guardado tudo, e agora apenas observava a escuridão, pensando em possibilidades para a barulheira (talvez meus irmãos, meus primos…), uma terceira pancada soou. Aqueles três…, pensei em meus irmãos se divertindo às minhas custas, como sempre gostavam de fazer.

Guardei o bombom junto das velas dentro da meia, e a meia foi de volta à gaveta. Parei novamente para observar o meu redor, hoje penso como era um menino medroso, e com um suspiro criei coragem para sair do armário e ir checar o que criara aqueles sons.

Abri o armário, tirei a chave pus novamente em torno de meu pescoço, vagarosamente abri o armário. Ao olhar para fora, lá estava ela, sentada em posição fetal de frente para mim, esperando-me sair.

-Ahh! – gritei ao ver Ingrid, minha prima, com um olhar tácito caído sobre mim. – Ingrid?!

Ela riu, eu estava com a mão sobre o peito, afagando ainda pelo susto. Ela descobriu…, pensei amargurado.

-Então, – sorria de lado a lado do rosto. –finalmente descobri onde meu priminho se enfia quando foge de nós…

Ingrid se levantou e foi até a porta do armário, observou calmamente a fechadura que trancava o armário por fora, depois a que o trancava por dentro. Ainda sorrindo, virou-se para mim e completou:

-Nossa, um ótimo trabalho de marcenaria, não? – falou baixinho, ainda observando os detalhes da fechadura do armário. Em seguida levantou o olhar de volta para mim e perguntou-me nos olhos:

-E por quanto tempo mais pensava que poderia esconder isto de mim?

Tentei respondê-la, mas fiquei sem palavras para isto.

Se algum dia alguém, qualquer um, pedisse-me para descrever minha prima, duas características seriam essenciais. Primeiramente, apesar do visual dândi, ligeiramente masculino e extremamente arrumado, com o qual gostava de se exibir na rua, Ingrid era uma das garotas mais desorganizadas que conhecia. Mas, em oposição à sua falta de ordem no que se tratava de seu quarto ou até mesmo em seus horários, pro exemplo, ela também era uma garota muito inteligente e prontamente atéia.

Ao completar seis anos, Ingrid mostrara-se tão perspicaz e respingona que sua mãe não hesitou em mandá-la a uma escola católica. Lá, dizia Ingrid, todas as freiras eram grosseiras (apesar de seu teórico respeito por Deus e as demais criaturas), as alunas, mais frescas que anjos de afrescos de Botticelli, e para piorar a situação, não havia nem sinal de vida inteligente a quilômetros de distância. Por desejo de sua mãe, fervorosa cristã que desejava converter Ingrid a qualquer custo (Por ela, até permitiria que realizassem uma lavagem cerebral em mim – o que aquela escola maldita não deixa de ser. Ou então, trocaria logo de filha, fingindo que de nada sabia!, ela mesma dizia de sua mãe, a senhora Cássia.), minha prima tinha de passar tempo integral na escola, indo para casa apenas nos fins de semana.

Ela era seis anos mais velha do que eu, e apesar disto, continuava sendo minha confidente, e eu, o dela. Adorava contar-me os métodos que inventava para matar as aulas de religião (as piores, em sua opinião), ou de simplesmente não prestar atenção a elas. Um de seus favoritos era o do livro por debaixo da saia, onde ela escondia um de seus livros de filosofia prediletos embaixo do comprido tecido da saia do uniforme e durante a aula a levantava completamente para ler, quando via a professora se aproximando, nem se incomodava em abaixar a saia, ela parava ao seu lado, via o livro e as coxas desnudas de Ingrid, logo ficava vermelha como um pimentão de raiva e vergonha, e só então minha prima retornava a abaixar a saia. Nem se quisessem elas teriam coragem de meter a mão debaixo de minha saia e puxar o livro!, ela ria, Acredito que não conseguiriam levantar as próprias saias, quando o fazem devem virar os olhos para fugir do pecado. Adorava criar confusões com as freiras, tinha as marcas disto, de tapas que costumava a levar, além de provocar as alunas, como havia feito antes de me ver naquele dia vinte e três.

-Não conseguiria, mesmo, esconder isto de mim… Mas pode deixar, não contarei a ninguém! – então, ela me puxou e apertou-me num forte abraço. –Quantas saudades de você, pequenino Budd!

-Também senti, Ingrid.

Ela me largou e segurou-me pelos ombros.

-Alguém já lhe disse que tem nome de cachorro? – perguntou-me rindo.

-Você já cansou de me falar… – respondi girando os olhos, mas ainda sim rindo por dentro. Era mesmo verdade, sentira muita falta dela.

-Ah, não se incomode, sua mãe foi muito criativa!

Bom, para ser sincero, minha mãe não fora nada criativa. Budder fora o nome de um cachorro que minha mãe tivera quando nova, ele chegara para ela, como costumava a dizer, por surpresa de seus pais (mais ou menos como eu mesmo), e também fora embora de maneira surpreendente, num atropelamento por um carro. E além da coincidência com a minha inesperada chegada, mamãe gostava de chamar-me de filhote. O que mais gostaria de perguntar a ela, era como fora capaz de dar o nome de um cachorro para seu filho? Talvez o que explicasse isto era seu profundo apego por animais.

-Então… Pode ir confessando para mim, sabe que aprendi muito de confissões com a Madre Superiora… O que, diabos, estava fazendo escondido aí?

Ingrid já havia me soltado e agora andava pelo quarto, arrastando sua mala para um canto. Largou-a no chão, sentou-se a sua frente e a abriu, remexeu as roupas de dentro da mala e puxou uma blusa larga em estilo masculino.

-Ora, na… nada. – gaguejei. Droga…

Ela pôs-se a desabotoar a blusa feminina social que vestia.

-Nada que o tenho tornado gago, mas algum segredinho, não? – sorriu desdenhosamente.

-Claro que não há nenhum segredo. – olhei para o lado enquanto ela despia a blusa, sem lá grandes cerimônias, e seu sutiã pondo a blusa que havia pego em sua mala.

-Ótimo, então acho que pode contar. Bom, mesmo se fosse um segredo teria de me contar mesmo, podendo ou não…

-Já disse que não há nada.

-Certo, bem como não há nenhum ser no espaço! Acredito! – por algum motivo, Ingrid não era nada devota a Deus, mas muito devota a teoria de existência de vida alienígena.

-Ingrid, não teime! Agora nem posso ficar em meu armário sossegado!

-Pois não pode, mesmo! Olhe só, – falou virando-se para mim, por reflexo olhei para ela também, e quando percebi que ainda estava meio despida, com um dos seios aparecendo por debaixo da blusa, bruscamente voltei a olhar para um canto qualquer do quarto. –você não é de me esconder nada, e se está, agora, fazendo isto é porque tem algo por trás disto. Ou melhor, há alguém…

Vermelho, não mais pela cena de Ingrid seminua, foquei o chão.

-E eu sei quem é… Quem ele é…

Ingrid deu um pulo e voou para cima de mim, caímos os dois no chão, ela apertava minhas bochechas (costume de quando achava que eu estava com uma cara “bonitinha”) e ria quase a gargalhadas, escandalosa como sempre.

-Conte-me, anda! O que fez? Digo, o que ele fez?! Beijou-o, deu-lhe um pontapé? Sinto que foi um beijo porque, se quer saber, ocorreram umas coisas relativas a beijos em minha escola… – Ingrid lançava as palavras como uma metralhadora de um guerrilheiro. E ao, finalmente, acalmar-se, abraçou meu pescoço, caída ao meu lado.

-Não aconteceu nada disso, Ingrid… – falei baixinho.

-Mas é sinal de que algo aconteceu, senão nada falaria neste tom de dó menor, meio de culpa, meio de vergonha… Fale-me. – ela sorria, apenas, com inocência, sem mais desdém nem sadismo.

Vi-me encurralado, num beco, uma rua sem saídas. E, na verdade, acredito que desde o dia em que resolvi contar a estranha sensação que tinha para Ingrid, me encontro assim. Porém, excluindo a vergonha sentida, não havia nenhum problema para contar-lhe estas coisas, e tudo o que havia ocorrido naquele dia.

-Bom… – resolvi começar. –Hoje…

No entanto, ao terminar um suspiro, daqueles que parecem levar um pouco do medo para longe, mais uma vez o alto som bateu contra a janela de meu quarto, sobre a minha cama. Sentamo-nos com um sobressalto. Fitei Ingrid nos olhos, por um momento pareceu assustada, mas logo que seu susto desbotou, começou a rir novamente.

Eu, diferentemente, continuava sério e assustado, era o meu normal.

-Devem ser aqueles sacripantas dos seus irmãos, os três patetas! São tão bobinhos, sorte minha (e sua) que nasceu um mais espertinho na família!

Ela se levantou e foi até a janela, ajoelhou-se em minha cama e se esticou para alcançá-la. Dando um empurrão, abriu as abas de madeira, um fraco brilho do sol se adentrou, bem como um ou dois flocos de neve distraídos.

-Seus demoniozinhos!, ela começou. No entanto, no segundo seguinte, já havia se calado. Ingrid observava boquiaberta algo do outro lado da janela.

Ao ver a expressão de seu rosto, prestes a soltar a sua frase predileta, “Oh, meu Lúcifer.”, pus me de pé com um forte impulso e parei ao seu lado, ao lado da cama. Antes de olhar para fora, bati de novo contra seus olhos, ela parecia abismada e apontou para o quintal de nossa casa, que se via do meu quarto. Meus olhos seguiram seu dedo, meio mal esticado, incrédulo com seja lá o que via.

Ao seguir o traço que Ingrid indicava no ar, parada ao lado do pinheiro, meio escondida atrás dele, vi que lá estava ela. Lá estava minha prima, a própria Ingrid, sorrindo-nos ela deu um aceno. Voltei a olhar para o lado, e constatei que Ingrid, a minha, ainda estava ao meu lado observando sua cópia no quintal.

A garota do quintal segurava um pedaço de madeira, jogava-o ao ar e logo em seguida, com destreza, apanhava-o novamente. Então, ela deu mais um aceno (ambos podemos ver a luva que a cópia usava, branca com um botão negro de pedra ônix para o fecho, a luva preferida de Ingrid) e tacou o pedaço de madeira em nossa direção, ou apenas na direção da janela.

Abaixamo-nos rapidamente, e logo nos viramos para ver a garota no quintal, mas ela já não estava mais lá. Como um fantasma de contos de horror, parecera que evaporara no ar. Num acordo tácito, eu e Ingrid viramo-nos para olhar o tal pedaço de madeira caído no chão do quarto, em frente a minha cama.

Nele vinha escrito, com um garrancho que ainda aparentava arranhar a madeira: “Hello.”

Fim da parte dois;

Olhos calmos, unhas azuis,

•Dezembro 6, 2008 • Deixe um comentário

~Olhos calmos, unhas azuis, e sem rosto nem gosto. Hoje o dia foi interessante, diferente, no mínimo. Não sei o que deu em mim, mas resolvi que vou passar a noite e a manhã corrigindo textos. Problemas semânticos que achei não resolvidos.

Em compensação à chatice deste trabalho, me permeti o luxo de continuar uma história há tempos parada. Gosto dela, merece um bom desfecho, mesmo que me mude olhares, unhas, rosto e gosto.

Adoraria entregar-lhes até o fim da semana três coisas, coisas que prometo fazer. As três são: a correção semântica de “Desfeito”, que acredito ainda poder evoluir, tendo em vista que perdi meu medo de pronunciar palavras como “homossexualidade, lésbica, Newton, fome, ornitorrinquídeos, estilete, arroz integral da minha tia” e todas estas coisas que me metem nervoso. Especialmente arroz integral da tia Denise. Tia, eu te amo, mas o seu arroz é intragável.

Vocês não devem imaginar, mas é algo delicado para os autores escreverem, nunca se sabe quem pode ofender, que problemas pode arrumar, já pensou numa briga contra um ornitorrinco carregando um estilete naquele bico estranhamente redondo! Pois é, algo difícil, muito. Então, eu tenho um prazo, né? Hoje é dia seis de Dezembro (uma data muito bonita 06/12, é tão… divizível, e por isso matematicamente bonita aos meus olhos sinestésicos e calmos), logo tenho até o dia… calma, sete é domingo, oito é segunda… até o dia treze (a data parece premonitória em relação a algo… o que seria?) para cumprir com meu acordo de três coisas inutilmente úteis acima. Podemos chamar isto de… promessa.

Então, depois dessa facada que eu dei no meu calendário e na minha semana, brincadeiras à parte, sou um lixo com encomendas, aí vamos à…

~Forneria di Bombons

E mais uma vez o martelo bateu sobre a madeira do balcão.

A noz lascava-se e logo se partia, abrindo e mostrando seu conteúdo miúdo ao público.

Lembro-me de que até meus quatro anos, eu imaginava todo sortilégio de coisas que poderiam sair de dentro da casca “indestrutível” – como eu imaginava que fosse – de uma noz. Depois de ver meu pai abrir uma noz pela primeira vez, aos quatro anos, meu sorriso esmaeceu e descobri que era apenas uma coisa estranhamente massuda e com gosto desinteressante. No entanto, graças à minha tristeza ao deparar-me com tal descoberta, minha mãe resolveu passar a fazer para mim e meus irmãos uma torta recheada com nozes, que sua avó fazia para ela quando jovem, e de gosto muito delicado, doce e apreciado.

O barulho do martelo irrompeu o ar, fechei os olhos com força e encolhi os ombros perante o estrondo, que para mim, pequeno e sensível, soava como fortes trovoadas.

Mais uma noz se abriu, e apenas mais massa saiu daquela semente oleosa. Ao reabrir os olhos, espiei, tendo que ficar na ponta dos pés, o balcão. Tinha onze anos neste dia vinte e três de dezembro, dia que agora narro, esforçando-me para relembrar de tudo, não somente a barulhada desagradável ou não somente os gostos e cheiros adocicados. E apesar de minha idade, não pouca, eu era um garoto de altura desprivilegiada, se assim posso colocar.

Então observei as mãos hábeis pegando o recheio e pondo-o num pote de vidro, as cascas ele empurrava para uma lixeira, imagino que esta ficava próxima de seus pés, de trás do balcão. Era um rapaz alto, muito alto, seu abdômen, à altura de suas costelas, batia contra o balcão, e comparado a mim ele era um gigante. Puxou para perto de si mais uma noz, martelou-a sem dó e eu a ouvi rachar e partir, fechando os olhos de novo.

Enquanto ele refazia a pequena burocracia de separar o útil do inutilizado, jogar as cascas na lixeira desconhecida, encher um pouco mais o pote de vidro, eu levantei os olhos para ver seu rosto.

Decididamente, eu não compreendia. Tudo que conhecia daquele rapaz era seu modo de martelar as nozes para eu ter o que entregar à minha mãe, para esta poder preparar para nossa família – ela, meu pai e meus três irmãos, e às vezes nossos tios e avós, primos e conhecidos – sua famosa torta. E não compreendia como um jovem com aparência assim delicada, ligeiramente feminina, mesmo desarrumada, poderia quebrar sementes inocentes como aquelas com tamanha violência; eu acreditava que bêbados fizessem aquilo, ou então meu pai, viril e de pavio curto.

Depois de reabrir os olhos e voltar a investigá-lo, meu cérebro, cuja memória funciona como um álbum de fotos, capturou seu rosto e ombros. A foto foi impressa como numa Polaroid, era ele um rapaz de cabelos ligeiramente desgrenhados e que deslizavam até um pouco depois dos ombros, loiros, olhos claros e rosto adelgaçado.

Ele me viu antes da outra martelada, a observá-lo, e soltou um sorrisinho apetecido por algo que eu não conhecia. Eu sorri de volta, imaginava que ele se deparava com seu extremo oposto: eu; baixinho, de cabelos negros e curtos, educadamente repartidos para a direita, além de olhos escuros, fazia a ele seu espelho contrário numa enorme Casa de Espelhos.

Logo voltou a bater nas nozes, e eu passei a contar quantas ele sovava, parecendo-se com a freira cruel da escola de minha prima Ingrid, de quem ela relatava receber constantes tapas, ou qualquer outro tipo de sova, como castigo por pequenos atos mal-educados, mas não de todo maldosos.

Acredito eu que foram, ao total, trinta e seis nozes.

Chegou a trigésima sexta e ele largou o martelo sobre o balcão, pegou o pote com a mão esquerda – imagino que ele fosse sinistro, o que quero dizer, canhoto – e despejou todas as nozes num saquinho de papel cor de envelope pardo. Em seguida, o rapaz pesou o conteúdo numa balança antiga, pondo o oposto do peso dele na outra bandeja, e calculando consideráveis cento e tantos gramas, quase duzentos.

Perguntou-me se era o peso suficiente, eu acenei que sim e estiquei prontamente o braço entregando-lhe algumas libras esterlinas em moedas de pence, eu era tímido e nem o olhei ao pegá-lo surpreendido com minha prontidão ao pagar logo as nozes. Não vi, mas ele sorriu com o mesmo ar desconhecido.

O rapaz pegou o dinheiro e me deu o saquinho de nozes, eu também sorri, dei um bom-dia quase inaudível e me dirigi à saída. Quando eu estava a cruzar a porta, a balançar o sino preso no topo dela, a deixar a loja;

-Venha cá.

Ele me chamou de volta.

Eu parei diante do vidro da porta, de onde li, ao contrário, enquanto decidia se o obedecia ou fingia não ter ouvido nada – envergonhado como eu era, a segunda opção, mesmo pendente, ainda soava bem -, Forneria di Bombons. Ah, então é verdade? Ele era um rapaz italiano, um imigrante?

Como eu já demorara alguns segundos para ler a inscrição na porta e para perguntar a mim mesmo se ele seria imigrante, a opção de fingir que nada havia sido dito tornara-se ridícula, senão até mesmo grosseira.

Então, retornei a ele.

Cabisbaixo de timidez, parei diante do balcão. E ouvi-o de novo, mas dessa vez sua voz não pareceu não-familiar, e nem agitou a loja como as marteladas que eu já relacionava a ele, sua voz soou doce. Senhor Marconi, senhor Martelo.

Ele pediu a mim para que fechasse os olhos e abrisse as mãos. Com a curiosidade aflorando meu ânimo e, provavelmente minha face, senti o som de sua risada – era uma risada em tom de ré bemol – avançando e se roçando no ar, rindo de meu acanhamento.

Senti algo cair entre minhas mãos, depois pude abrir os olhos. Embrulhado em papel dourado e laminado, brilhante, adivinhei que fosse um dos famosos bombons Marconi, estava um pedaço de chocolate recheado.

Olhei para ele espantado, e logo me pus a remexer o bolso, mas não havia nem mais um pence!

Foram seus olhos que sorriram desta vez. O rapaz Marconi afagou meus cabelos (eles não se despentearam como os dele mesmo, como ele queria) e disse-me: “para você”.

Espantei-me mais uma vez. Ele gostava de me fazer repetir meus atos parecendo bobo, tímido? De me destrinçar?

E com seu aceno de cabeça percebi que eu já podia deixar a loja, e podia levar meu bombom…

Saí com a mesma velocidade que voltara ao balcão, e a mesma com a qual pagara as nozes e as pegara, deixei atrás de mim o sino falar alguns de seus costumeiros plins após o bater corrido da porta. E senti mais uma vez seu sorriso.

A sombra do rapaz Marconi estava num canto da loja, ainda olhando para minhas pequenas costas saindo pela apressadamente pela rua. Sem desdém e sem graça, ele ainda laçava seu sorriso estranho.

Não olhei para trás, mas imaginá-lo ali, atrás do balcão, com os lábios enviesados, foi o suficiente para um ar nervoso acompanhar-me durante toda minha volta para casa.

Fim da parte um;

Solstício de Inverno

•Novembro 24, 2008 • 4 Comentários

~Sim, senhores e lindas senhoritas (se é que as damas permitem-me conceder-lhes tal elogio), sei que hoje, nem ontem, nem amanhã, ou qualquer dia no raio de duas semanas (para frente ou para trás), foi um solstício. Assim como não estamos no inverno (jazemos quase esturricados de calor, como ovos fritos por mendigos em calçadas, no que chamamos vulgarmente de inferno – o tal verão do Rio de Janeiro), apesar de os termômetros estarem oscilando entre temperaturas agradabilíssimas para minha pessoa (o que quer dizer temperaturas frias ou de amenas para baixo). Mas reinvindico meu direito como idiota de plantão para poder chamar os dias que amei de “Solstícios de Inverno”.
Hoje foi um Solstício de Inverno, hoje chorei três vezes com uma felicidade tão profunda que virou ferida e fez sangue escorrer. Não vou explicar os motivos, são pessoais demais para expor aqui. E não é que eu acredite que alguém venha se interessar pelo que esteja garranchado aqui, e muito menos por falta de confiança em meus leitores, mas… Não vou dar-lhes este gostinho.
Descubram.
Pois números ímpares não são fáceis de dividir.
Entendam.

~Desfeito

Estávamos sentados, eu e Natalie, debaixo das luzes recalcadas do pub que ela costuma a freqüentar. Depois de tomar o copo de drink que ela havia me oferecido, puxei da minha mochila meu maço de cigarros e enfiei um na boca, acendendo de qualquer jeito com o isqueiro quase no final.

Natalie estava distraída, apoiando seu rosto no dorso das mãos, os cotovelos colocados sobre a mesa, enquanto bebia os últimos goles do daiquiri de morango que tanto gosta.

Minha primeira baforada fez com que Natalie retomasse a consciência. Olhou em meus olhos e depois para minha boca, vendo meu cigarro pendendo entre meus lábios.

Natalie bateu com o copo na mesa, gotas de morango bateram na mesa, sua fronte formava um grande borrão de raiva.

-Larga esse cigarro. – disse-me.

Sem hesitar, larguei o cigarro, mas aproveitei a fumaça que restara em minha boca para soltar uma outra baforada bem em seu rosto. Natalie fechou os olhos e cuspiu a poeira do cigarro para longe, mordeu os lábios com vontade e, sacudindo os braços, se virou contra mim. Dei uma risadinha, estava extremamente divertido ver a revolta de Natalie, não sei exatamente o porquê, àquela altura eu já deveria estar bêbado.

-Você está sempre se enchendo desses cigarros, onde está aquela promessa que você fez? Você não ia parar?!

-Ia. E estou parando, mais tarde eu trago mais um e paro de novo. Tem que ter uma pausa, entende? – disse com um sorrisinho, mesmo estando completamente desgastado.

Ela não disse mais nada, me encarou por um momento, e depois voltou para o copo, catando as últimas gotinhas vermelhas. Natalie pareceu uma vampiresca, com os cabelos loiros formando cachinhos sobre seu colo. Aquilo no copo dela parecia sangue.

Como o sangue de quando minha mãe me teve, batido, doloroso.

Eu bufei, olhei calmamente para minha prima ali parada, ignorando-me. Acabei por, a contragosto, dizer:

-Olha, eu sei que falei que pararia… Mas, depois de tudo que aconteceu…

Natalie virou-se para mim com brutalidade, bem como antes, quase tacando sua expressão contra mim. Mas, diferentemente de antes, me assustou.

-Depois de tudo que aconteceu?! – o copo foi contra a mesa de novo, mas dessa vez não tinha mais gotas para pingar. – Aí mesmo que você deveria parar! Se embebedar não vai mudar o que seu pai pensa de você! Ele não gosta de você? Foda-se ele! Quer pelo menos gostar de si mesmo?!

Pode parecer idiota, e, na verdade, tem de ser bem idiota mesmo, que alguém mesmo depois de escutar a mesma conversa por dois anos não mude de perfil.

Eu era o idiota que não mudava de perfil, digo, eu sou o idiota que não muda de perfil. Bem que tento, mas eu acabo recaindo aos velhos hábitos, é muito difícil melhorar quando o mundo todo conspira para que não dê certo.

Ou, pelo menos, aparenta bastante que o mundo conspira.

Natalie jogou a bolsa por cima do ombro e foi embora. Eu realmente não esperava por aquilo, imaginara que ela fosse ficar por mais algumas horas e discutir comigo sobre mim (algo extremamente interessante, e eu imaginava que seria bem mais por eu estar bêbado. Daria bastante trabalho à Natalie, e aquilo me divertiria.), mas ela simplesmente saiu. Não parou junto da porta para olhar atrás, nem me fez qualquer gesto obsceno, ela foi embora.

Fiquei meio estupefato com sua atitude por uns momentos, até recobrar minha consciência ao ver o garçom largar o outro copo de vodka que eu havia pedido sobre a mesa.

-Você vai pagar a bebida daquela dona ali? – o garçom me perguntou, ele deveria estar imaginando que um paspalho como eu iria fugir para não ter de pagar a conta dos dois, percebi isto mesmo estando atordoado.

Aborrecido com a atitude do garçom, somada com a de minha prima, respondi grosseiramente:

-Vou sim. Toma.

E larguei uma nota de cinqüenta dólares sobre a mesa, antes de tomar toda a batida num gole só e ir bem como havia feito Natalie. Lembrei-me dela saindo naquele jeito espalhado, teria sido mais de sua personalidade se ela houvesse me dado adeus ou houvesse me xingado antes de bater a porta do bar com força.

Mas, pareceria um filme se ela fizesse algo assim. E minha vida é tudo menos um bom filme. Naquele momento eu não pensara na hipótese, a de que o gesto de Natalie fora tão poético quanto de qualquer gesto num filme francês.

Ao sair do pub, olhei para a grande mancha abóbora que se estendia no esplendor do céu, não dei muita importância a ela e nem às belas luzes se acendendo vagarosamente, aqueles dois brilhos encantadores. Eu tinha outras coisas andando por minha mente, mas ao mesmo tempo nada tinha.

A brisa que passou por mim, por um momento pareceu me tirar um pouco do álcool do sangue, e voltei a pensar profundamente. Enquanto olhava as pessoas andando, com pressa, sentia meu coração angustiado, ao chegar a casa teria de fazer todas as coisas das quais eu menos gostava. Digo, naquele momento, nada eu apreciava. Sentia-me sozinho, abafado, e, olhando para aquelas pessoas, eu via a mesma coisa que sentia.

As pessoas são um espelho, no qual você vê o que sente, não importa se você queira ter uma visão ampla do mundo, você sempre se verá, mesmo que em um pouquinho ou em um acessório de suas vestimentas, ali, nelas.

Todas olhavam para o chão, ou para frente. Fixamente. Pés rápidos demais ou lentos demais. Parecia que o coração de todos naquela rua palpitava no mesmo ritmo, e se fôssemos chorar…

A rua se inundaria, salgada.

Mas o sol continuava a descer no horizonte, indiferente ao sentimento dessas pessoas, aos meus sentimentos. Meneei a cabeça de um lado para o outro, e perguntei baixinho:

-Que Deus é este que nos faz sofrer tanto?

É claro que ninguém respondeu, afinal, ninguém ouvira o que eu dissera, nem mesmo Deus, e acredito que se qualquer um deles tivesse ouvido nada responderia ou pensaria sobre aquilo.

Preciso de um milagre para mudar.

Chegando à minha casa, como sempre, tirei os tênis enlameados do caminho de terra que eu tomara naquela tarde. Deixei-os ao lado do simpático tapete que prenunciava nossa casa, “Bem-vindo” ele diz, no entanto, não passa de calunia para mim, eu não sou bem-vindo aqui.

Agradeci por não haver ninguém em casa, só eu e os objetos calados.

Andei até o sofá e taquei minha mochila nele, desfazendo a manta que o cobria. Observei a manta abóbora escorrida e caída em parte da minha mochila largada, fiquei um tempo ali, então peguei a mochila e pus no cabide de madeira maciça que ficava na entrada de casa. Depois retornei ao sofá e ajeitei a manta para como antes estava.

E neste momento pensei, olhando para o sofá novamente, engomado. Pensei em um adolescente normal chegando à sua casa; ele tiraria o tênis de qualquer jeito e o deixaria num canto, em seguida largaria a mochila bem como eu tinha feito, e não se importaria em arrumar nenhuma das duas coisas até que sua mãe pedisse, ou ela mesma o fizesse. Mas eu não posso esperar minha mãe, eu não a tenho, e também não posso deixar desse modo para que meu pai veja, ele me daria três tapas ou agrediria verbalmente, mesmo que eu já tivesse corrido e posto tudo em seu lugar.

Quem é meu pai?

Ele é minha assombração. É minha mãe que voltou para me odiar. É o meu ódio andando e respirando. Todo amor que tenho está nele, pois todo meu amor foi jogado fora.

Ela passou a mão na boca, limpando-a, e cuspiu no chão.

Todo meu amor foi cuspido.

Meus pés foram sem a menor vontade até a cozinha, lá havia uma lista de afazeres presa a geladeira. Dei uma lida e um sorriso forçado. Mais da metade das atividades já havia sido feita, incluindo lavar as roupas, arrumar os quartos, varrer a sala, terminar meus deveres de casa, tirar o que estava do varal (a previsão dava chuva com ventos para aquela noite), eu terminara tudo à tarde, antes de encontrar Natalie.

Mais três coisas simples: pedir comida do mini-mercado próximo a nossa casa, lavar a louça e preparar o jantar, nesta ordem.

Acenei com a cabeça, só mais isto e eu poderia me retirar para o meu quarto e dormir, jantar mudo terminado, olhares vagos para meu pai e perguntas vagas sobre a escola.

Como vão suas notas?

Bem.

Bem, como sempre.

Ao telefone sem fio pedi tilápia e legumes, faria meu prato predileto para tentar me animar, quem sabe largar o cigarro? E, claro, faria purê de batatas com cebola picada.

Enquanto ia caminhando com o telefone apoiado no ouvido esquerdo, sou canhoto, e ouvindo a música de espera mais que insalubre, pus o avental e arregacei as mangas compridas de minha blusa, preparação para lavar a louça.

Uma moça de voz pesada atendeu ao telefone, isto me deixou para baixo, mas não me senti impedido de terminar a lista de compras, mesmo quando ela apenas dizia “uhum, uhum. Algo mais?”.

-Não. – respondi. Pessoas assim são, no modo mais vulgar de falar, broxantes. E imagino que realmente sejam.

Enquanto lavava a louça decidi observar a janela ao meu lado, por mais arriscado, podendo quebrar algum copo ou prato. Cercas-vivas altas separam o quintal gramado de minha casa do terreno baldio ao lado, uma varanda separa a janela do quintal, uma cerca de madeira separa a varanda do quintal. E pedras no chão de grama clara caminham os visitantes pelo quintal. Aonde eles vão?

Como sempre, minha mente foi pelo quintal, pela casa, saiu enquanto eu lavava a louça. Estamos procurando alguém que nos acaricie.

Então, quando a louça já estava toda limpa e eu apenas continuava a ver as estrelas rasas no céu de azul profundo, a campainha tocou. Já passara quase uma hora.

Finalmente, eu pensei, estranhando o atraso incomum do entregador.

Pedi por um minuto para pegar o dinheiro, e fui até o portão de madeira, as pedras me deixaram passar sobre elas desta vez, ao contrário da vinda, pois eu me sentia melhor agora, bem melhor.

Pus a mão na maçaneta fria, bronze, do portão de madeira e lá estava o jovem Wilson, sentado sobre sua bicicleta e remexendo a pochete verde vivo onde sempre carregava os trocados para e das entregas. Só de vê-lo ali, eu já poderia fazer sua ficha técnica:

Wilson Thomas Bernet, dezenove anos, trabalha como entregador para arrumar uns trocados porque seus pais se recusam a dar-lhe uma mesada. “Você já tem idade para trabalhar.”, eles possivelmente dizem a ele. É um jovem baixo, moreno e anda sempre com um sorriso bobo no rosto, mas nem por isso é uma pessoa desagradável, pelo contrário. No entanto, continua sendo mais um rejeitado como eu.

Wilson sorriu para mim, aquele mesmo sorriso do qual falei.

-Que demora, hein? Está querendo me pôr numa enrascada? – disse rindo.

-Desculpe, mas é que chegar até aqui foi uma dificuldade. Têm uns galhos caídos na rua, tive de tirá-los do caminho para vir.

E só então me dei conta do vendaval que começara, varria as folhas do quintal para longe, e trazia as nuvens anunciadas pelo meteorologista do noticiário da tarde.

-Bom mesmo ter uma desculpa, está a fim de ficar sem gorjeta?

Fazendo uma careta, com a língua e os dentes perfeitos (porém grandes demais para sua boca) para fora, ele riu mais uma vez. Vou ser sincero, gosto muito do Wilson, e é mais por ele do que pela qualidade do mini-mercado que sempre peço o necessário de lá, em vez de comprar num lugar melhor ou mais barato.

-Ah, gorjeta é coisa de garçom, pompa demais para mim. Me contento em ouvir das minhas moedinhas.

-Tá, tá. Você vai receber suas moedinhas, mala. Agora passa para cá a minha encomenda, por sua culpa vou ter de correr para preparar o jantar.

-Não foi culpa minha, ó. – ele apontou para as árvores remexendo os galhos, como se estivesse aborrecidas. –Foi culpa desse vento.

-Esta história vai render… – falei enquanto pegava as sacas que Wilson me entregava.

-É verdade! – a última sacola se foi para minhas mãos. –Além do que, fiz um favor, você não gosta muito de ter de fazer o jantar. Estou mentindo?

-Está. Eu gosto de preparar o jantar, só não gosto de fazê-lo para meu pai.

Não percebi, porém mostrei uma expressão triste, algo de que não gostava de fazer ao receber Wilson, tão alegre, em minha porta. Ele me encarou com um olhar de grau sério:

-Ainda tendo problemas com ele?

Lembrei do dia em que Wilson chegara para entregar-nos mais alguns pedidos, o motivo maior por trazê-lo a nossa casa, afastada algumas milhas do mercadinho. Meu pai batera em mim naquele dia, deixando uma marca vermelho vivo em meu rosto e outra em meu braço direito.

Balancei a cabeça em sinal de concordância.

-Seja o que for que ele te diga, você não é nada ruim. Você é incrível, certo?

-Certo… – respondi com insegurança. –Ah, aqui está o dinheiro. – continuei, tentando desviar o assunto, e indiquei o bolso do avental onde eu pusera o pagamento e a gorjeta do Wilson.

Ele pegou o dinheiro e depois o contou.

-Certinho. E três dólares de gorjeta? Está generosa hoje!

A verdade é que não estava nos meus planos dar-lhe três dólares, eu pegara o dinheiro que meu pai havia deixado sobre a mesa para as despesas do dia, e imaginara que contaria antes de entregá-lo a Wilson. No entanto, após termos tocado num assunto delicado, eu me esquecera deste detalhe. E o sorriso de orelha a orelha que Wilson deu foi o suficiente para eu me abster qualquer reação, pedir desculpas e dar a quantia certa.

E, afinal, aquele dinheiro pertencia ao meu pai, eu em nada me importava em gastá-lo se eu não apanhasse por isto.

-Gosto de um pouco de filantropia, de vez em quando.

-Poxa, muito obrigado!

E com isso, ele foi subindo em sua bicicleta ferrada. Eu ri enquanto o via se afastando, ainda parado junto ao portão e segurando as sacolas, como se tivesse esquecido de novo o jantar a fazer, como se o vento o tivesse levado embora junto das gotas finais de álcool e de tristeza. Sua bicicleta rangia, inclinada a cuspir a correia fora.

Wilson me ouviu rindo e virou-se para trás fazendo caretas.

-Eu vou comprar uma nova! – e eu teria seguido para preparar feliz a comida do meu pai ingrato, isto se Wilson não tivesse completado:

-Ei! E você fica muito bonita de avental! Deveria sair assim pela rua, os rapazes iam adorar vê-la! – riu e deu uma piscadela.

Eu o vi indo.

Fechei o portão, e pus as sacolas no chão. Apoiei meu corpo, ele pesava, em um único ponto, minha mão que se encostava à maçaneta de bronze, senti o frio dela indo para dentro de meu corpo, e o vento, que antes apaziguara minhas dores e meu torpor, parecia agora desfiar meu interior.

Meu corpo infelizmente não desfiava.

Abaixei a cabeça e vi meu busto, seios robustos pendiam dentro de meu sutiã, minha virilha feminina escondida dentro de calças mais largas do que deveriam ser.

Pensara que apenas com um visual diferente eu poderia me sentir melhor, mais masculina, parecer com aquilo que sou, que sinto ser, mas não posso e não sei.

E mais uma vez ela limpou os lábios finos e depois cuspiu próximo aos meus pés. De novo meu pai bateu em meu rosto e me disse que era uma vergonha para toda a família, para minha mãe falecida.

Você a matou.

É, não era mentira.

Meu nome é Jacqueline, sou uma mulher, sim. Matei minha mãe durante seu parto, meu parto era perigoso à sua saúde, muito frágil, e eu deveria ter sido abortado. Minha mãe dissera que não, que me amava independentemente, e que Deus nos protegeria ao me dar a luz.

Hoje, sinto que foi melhor ela ter morrido, ou se eu houvesse morrido. Nunca desejaria ver alguém que tanto me amou ter um desgosto tão grande.

Deus a protegeria? Balela.

E que Deus era este?

Fim;

Smile

•Novembro 6, 2008 • 1 Comentário

Smile. =)

Eu sei que o texto não é muito bonito, mas sorria.

~Schicksal – parte dois

O primeiro dado

E, quando ela lhe disse que já cortara os pulsos trinta e duas vezes, desmaiou em seu colo.

Aonde estou indo?, Schicksal não se perguntou, ela nem ao menos sentiu o leve balanço que sofria caída nos braços daquele homem desconhecido, com a barba por fazer, as mãos cortadas em vários pontos, os olhos cansados e embevecidos pela visão daquela mulher fora do comum.

Ele a carregou por metros a fim.

Seu corpo não era um fardo pesado de se carregar, mas estar junto de Schicksal se torna um fardo para qualquer um, não importa quem, não importa a demora para isto acontecer.

Passaram por diversas árvores desfolhadas pelo outono, subindo uma ladeira de terra batida. Muitas folhas no chão, poucas nas árvores.

Mas Schicksal ainda dormia, nada daquilo ela via.

Dentro de seu sono, não havia sonhos, não havia pesadelos, e o descanso também não o habitava. Schicksal não sabia que dormia, via as sombras do que deveria ocorrer, o presente ligava-se ao futuro de maneira confusa, e ao acordar saberia não apenas que havia dormido (o seu sono maldito), mas também o que deveria fazer.

No sono daquela tarde, daquela noite, no tempo que havia tido ao desmaiar, Schicksal viu algo terrível. Ela viu uma garota de cabelos negros, lisos como linho, andando calmamente por um jardim ricamente ornamentado; em seguida passou a imagem de um homem robusto, com o olhar frio de um cão desejando vingança sangrenta; sangue, não apenas o que aquele cão desejava; um rio; e dados, muitos deles.

Schicksal despertou num pulo, como normalmente ocorria quando tinha previsões ruins. Seus olhos deslizaram ao redor, por um cômodo escuro e pobre. Estava sentada sobre um colchão fino estirado sobre o chão; um piso envelhecido de carpetes de madeira, as lâminas dele já saiam do lugar e a manta plástica que antes estava sob estas, saia dos buracos sem piso, rasgada, em diversos cantos do quarto.

Era difícil enxergar, só a luz que entrava pela janela, das estrelas e da lua, iluminava o lugar. Não havia sinal de outra pessoa, o único sussurro era o das folhas balançando e roçando numa das abas da janela.

Inquieta, Schicksal pôs se de pé, ainda não compreendia o que se passava, tão pouco se lembrava de como tinha parado em um lugar tão pobre e esquecido como aquele.

Forçando os olhos, foi capaz de ver mais alguns pontos do cômodo. Na parede oposta à janela, de frente para onde estivera deitada, estava uma porta decrépita (como já era de se esperar),fechada, e uma passagem retangular, onde talvez já tivesse estado alguma outra porta.

Em passos incertos, silenciosos (a não ser pelo barulho dos estalos de seus tornozelos) e também frágeis ela caminhou para perto da porta e da passagem.

A cada passada parecia que o corpo de Schicksal se desmancharia no ato, e subiam pelo seu corpo, como o torpor causado pelo álcool, um medo e uma tristeza.

Chegou próxima a passagem, ao lado dela estava, à esquerda, a porta. Depois olhou para dentro da passagem à sua direita, inclinando levemente a cabeça. Viu que o outro cômodo era um banheiro, tão velho e feio quanto o quarto em que ainda estava; lá apenas havia uma banheira de madeira (que mais se assemelhava a um barril maior que o normal), um penico, e algo que chegou até a espantar Schicksal, um vaso sanitário de porcelana. Ela achou inusitada a presença do vaso, não era novo e nem bonito, mas a porcelana era um material caro, o que a fazia imaginar como fora parar lá.

Schicksal imaginava como aquele vaso fora parar ali, abriu uma risada furtiva, entremeada por receios, na tentativa de alegrar-se. Talvez ainda houvesse motivos de diversão naquele mundo.

Então, quando ela estava acalmando-se finalmente, ouviu o som de passos vindo de algum outro lugar da casa. No ímpeto do susto, Schicksal correu para dentro do banheiro. Os passos ainda ecoavam, soavam como se fossem provindos de sapatos de burgueses ou nobres, com curtos saltos.

Mas Schicksal não dava tanta importância ao modelo dos sapatos que iam de um lado a outro, lembrara-se da preocupação de onde estava e por que motivo lá estava e também da preocupação que viria em breve junto a seus novos afazeres.

E quando o silêncio invadiu novamente todo o lugar, com curiosidade, Schicksal pôs a cabeça para fora do banheiro, virou o rosto para a esquerda e observou a porta, todos seus movimentos até então eram recheados de cautela, como os de gatos quando assustados.

Nada se via ainda na porta, ela permanecia fechada e intocada. Schicksal sentiu-se brevemente aliviada. No entanto, logo os passos tornaram a soar.

Ela enfiou-se de novo no banheiro, desta vez encostando o corpo contra a parede esquerda, perto da porta. Levou outro susto quando bateu com o ombro em algo, virou a cabeça rapidamente e jogou-se de leve para o lado, assustada. Era apenas um espelho, suspirou.

Por muito tempo, pelo menos vinte minutos, os passos ficaram indo de um lado a outro, pareciam vir do cômodo, para onde a porta trancada dava, do outro lado da parede do banheiro em que Schicksal se encolhia.

Schicksal não sabia bem se sentia medo ou não, porque não tinha motivos para temer, nada de mal poderia acontecer a ela. Mas seus sonhos… Algo neles fizera aquela bela mulher tremer e nela crescer uma vontade sem motivos, súbita, de chorar e debulhar-se em lágrimas. Havia algo que não era seguro, havia a tristeza em algum lugar, ambos cresciam e escorriam pela casa, ambos queriam pegá-la.

Lembrou-se da garotinha andando pelo jardim, não havia nada que nela Schicksal temesse, na verdade, aquela menina a tranqüilizava, mas em seguida vinha ele, o homem austero, aterrorizante, tinha cabelos negros e olhos negros, perfurantes. Ele fazia vários, milhares, derramarem sangue de outros para si; havia vingança e almas indo embora, havia fome, infelicidade, doença e pobreza, havia crianças magras, crianças, adultos, todos morrendo aos poucos. Schicksal ouviu seus gritos, mas eram todos mudos e mortos, aquelas pessoas abriam e escancaravam suas bocas para chorar e ela não conseguia ouvir nada. E mais sangue se espalhou sobre algum lugar, um lugar diferente, completamente diferente. Era uma pequena quantidade que escorria sobre um piso de ardósia negra. Viu dados caindo sobre a ardósia, e mais um grito, com som e agudo, ela reconheceu o grito. Schicksal gritava no meio da noite.

Caiu no chão, escorrendo as costas brancas de seu vestido pela parede. Ela havia mergulhado em suas previsões, o medo a tomara, vindo daquele homem e depois indo ao seu próprio grito. Schicksal estava com receio, seu corpo tremia de cima a baixo, de forma que se encolheu como uma concha, cruzou os braços e pôs a cabeça sobre os joelhos.

Ao ouvir o grito fino da mulher que acolhera em sua casa, de quem ainda nem sabia o nome, Thomas correu para o quarto em que a deixara.

Abriu a porta bruscamente, ela bateu contra a parede fazendo um estrondo, entrou no quarto e olhou por todos os lados, não havia ninguém ali? Thomas forçou os olhos contra a escuridão e continuou sem vê-la ali, esquecera a vela na sala pelo impulso. Ele voltou à sala e pegou a vela que deixara sobre sua mesa, segurando-a pelo pote em que estava, foi iluminando o caminho enquanto voltava ao quarto correndo.

De novo no quarto, Thomas olhou de um lado ao outro nervosamente ainda não a via, não havia ninguém ali. Passou a mão na testa.

Então, ouviu um murmúrio. Thomas andou rapidamente até aonde seus ouvidos o guiavam. Virou-se para o banheiro e esticou o braço com a vela.

-Você está aí, senhorita?

A vela iluminou o banheiro e então Thomas pôde ver Schicksal, encolhida ainda em si mesma. Schicksal levantou o rosto rapidamente, Thomas viu que chorava, sua pele branca fazia-se vermelha enquanto as lágrimas desciam rosto a baixo.

Nervoso, ele a perguntou:

-O que houve? Por que está chorando?

Ela apenas continuou a olhá-lo de forma estática, não mexia sequer um dedo, não dava uma só piscadela. Para ele parecia que Schicksal estava em choque, e era exatamente isto, choque dos sonhos, do homem, daquele homem… O homem de seus sonhos?

Thomas aproximou-se dela, tinha receios de assustar ainda mais aquela delicada figura, mas o que faria? Observou-a, ela era de beleza sobrenatural, constatou novamente, como da primeira vez que a vira.

Aquela era Schicksal, tinha cabelos negros escorrendo até sua cintura, olhos negros, lábios finos e corpo também fino. Schicksal era leve, e o que tinha de leveza tinha de delicadeza, o que contrastava consigo mesma. Como podia uma mulher com um jeito tão forte ser ao mesmo tempo tão frágil, era o que Thomas se perguntava.

Ela absorvia todos os pensamentos dele.

Ele se derreteria se a continuasse observando.

Thomas abaixou a vela e a pôs no chão em seu pote, os rostos de ambos mergulharam na negritude do banheiro, um observando o outro, maravilhado e chocado. Ele aproximou-se mais de Schicksal, e ela continuou como estava, tinha medo de se mover.

Então, sem mais, a beijou.

Thomas deu-lhe um beijo profundo e recheado de paixão. Quem era aquela mulher pouco o importava agora.

E quem era aquele homem, Schicksal já sabia, reconheceu por seu beijo. Sem saber os motivos, ela sabia, e sabendo o futuro, ela não compreendia o presente. Mas Schicksal reconheceu Thomas, porque ela vira que ele seria o homem que ela mais amaria em todo o mundo. E o perderia, junto de dados.

Fim;